sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

NOVA CENA

Quando LARISSA NÃO MORA MAIS AQUI lota seis noites no Teatro Hebraica, com um grupo novo, texto novo, atores novos, eu começo a pensar que talvez algo novo está acontecendo no Teatro Gaúcho.
Aprendi há muito tempo que para o teatro existir tem que haver um ator e um espectador. No mínimo. O teatro se realiza quando o espetáculo encontra seu interlocutor e o público pode pensar junto com a peça teatral e os afetos, os pensamentos e as emoções possam ser material de evolução na mente individual e no imaginário social Não acredito de forma alguma em teatro sem público e tão pouco acredito em público sem espetáculo.
Teatro é encontro de idéias e pessoas.
Anos 80 eu vivi uma virada na cena teatral. No hiato entre o teatro político representado pelo Teatro de Arena e pela paixão estética defendida por remanescente do Grupo Província, uma nova geração tomou de assalto o teatro local. Abençoados pela magia do grupo Asdrubal Trouxe o Trombone e pela emergência da Criação Coletiva vários grupos se formaram para colocar no palco suas questões essenciais. Daí surge e efervescência dos anos 80, com as peças do Balaio de Gatos, do Faltou o João e do grupo Do Jeito Que Dá. Bailei na Curva, Schooll’s Out, Das Duas Uma, Trena Flor, Não Pensa Muito Que Dói e outras marcaram uma nova cena gaúcha. Era o sotaque, os gestos, os costumes e as inquietações da juventude dos 80.
Este movimento que não chegou a se caracterizar com tal, embora com o passar dos anos se possa vê-lo com clareza. A geração 80 veio com alegria, com o corpo e com a mente disposto a lavar a alma do amordaçada pela censura e pelo golpe militar, mas também alvejava o academicismo oriundo do DAD.
Enquanto o palco se enchia de propostas que com humor e delicadeza enfrentava a ditadura, e com sexualidade rompia os costumes de um mundo pré-AIDS, nas autarquias administrativas os professores universitários, com contratos vigentes, buscavam se aproximação com o teatro, e passaram a exercer cargos diretivos dos rumos da arte cênica. Professores e artista com reconhecida competência, porém imprimiram um tom acadêmico a vida cultura teatral da cidade. Não que o academicismo não tenha que ter seu espaço, mas ele não é a palco e sim um alimento para a elaboração estética do artista. O palco pode contar o academicismo, mas o academicismo não pode ser o palco. E este processo culmina nos anos 2000 quando a cena gaúcha é tomada pelo academicismo disfarçado de vanguarda influenciada pelas visitas brilhantes dos grandes diretores trazidos pelo Porto Alegre em Cena e por artistas gaúchos que buscaram formação européia.
Academicismo e Novas Tendâncias Européias era tudo que a geração 80 odiava.
E agora, de volta do passado, sinto que uma nova cena surge e se impõe e se opõe. O Sobrado é uma ruptura já aceita por todos e não é um fato isolado. E guarda uma relação com Não Pensa Muito Que Dói. Casamento de Minha Mãe de Eduardo Mendonça, Fragile do Roberto Oliveira poderiam muito bem entrar nesta lista. De forma que acredito num novo ciclo criativo. O sonho da geração 80 começa a se proliferar através de uma tênue linguagem em comum que liga as décadas.
Temos um público novo e temos uma nova geração em cena. Destaco também o projeto de pesquisa da Cômica Cultural que colocou no palco três espetáculos em três anos discutindo a degradação da cidade a partir das relações familiares (Pílula de Vatapá); o homem urbano e as drogas (Dançarei Sobre Teu Cadáver) e a preservação histórica da cidade (Larissa Não Mora Mais Aqui). Essas peças formam um conjunto de temas contundentes e oferecem um belo espaço para diálogo com a comunidaded. Talvez por isso os teatros começam a voltar a ter público de verdade. E se cada espectador que for captado pelo espetáculo levar um novo espectador então o teatro está salvo.

domingo, 6 de dezembro de 2009


Mario Bortolotto foi alvejado com três tiros. Ele já escreveu mais de 40 peças. Uma produção invejável e admirável. Ano passado nos encontramos no bar Ocidente e conversamos na Lacheria do Parque. Impossivel não ser afetado por sua personalidade. Forte, decidido, intenso, niilista e sem autopiedade. Desfecha ironias em todas as direções. Ele é a alma beat dos anos 2000. Pouco tempo depois nos encontramos num debate sobre dramaturgia brasileira em Teresina no FestLuso 2008. Sua fala mostra a vitalidade de um teatro que resiste e o uso que ele faz da sua escrita é uma forma de amenizar o desconforto de uma vida sem sentido. Bortolotto é um homem do seu tempo em conflito constante com o establisment e muitas vezes contra si mesmo. Não tem meia medida. Talvez por isso, ao se defrontar com assaltantes armados que invadiram o Espaço Parlapatões na Roosevelt em São Paulo, reduto de sonhos e projetos, ele tenha reagido. Três balas no dramaturgo, mas ele, como o teatro que existe dentro dele, e de todos nós, resiste.

A mesmo sem acreditar em Deus, eu rezo por ele.

domingo, 22 de novembro de 2009

LARISSA NÃO MORA MAIS AQUI


ARGUMENTO



As grandes cidades para agregar uma quantidade maior de pessoas em lugares privilegiados acabaram criando os grandes edifícios. Lugares centrais e de grande fluxo tiveram sobre sua área grandes construções com o que havia de mais moderno e avançado. Porém o tempo foi gradativamente corroendo as estruturas e os edifícios foram decaindo. A conseqüência foi a criação de um cinturão de pobreza em volta. Este fenômeno determinou o afastamento de moradores dos centros urbanos e a ocupação de uma população pobre em torno. Os edifícios de luxo destes lugares entraram em franca decadência. Tornaram-se monumentos ao passado e sofreram uma drástica mudança em seus condomínio. Antigos proprietários, profissionais liberais, empresários, representantes das classes dominantes e aristocratas deram lugar a estudantes, trabalhadores assalariados, biscateiros vivendo de pequenos bicos, atores, escritores e e aventureiros vindos do interior ocupam o então luxuoso prédio agora com alugueis aviltados. A voracidade do mercado por sua vez passa a mudar a fotografia da cidade de forma constante. Prédios antigos ora transformados em pardieiros e em “balança, mas não cai” sucumbe à especulação imobiliária e dão lugar a modernos empreendimentos, escritórios executivos, salas inteligentes, informatizados e auto-sustentáveis, ecologicamente correto, usando material reciclado e de alto nível prontos a servir a um cliente cada vez mais rico e mais exigente. A destruição de patrimônio arquitetônico não dá conta das milhares de vidas que ali passaram, construíram, tiveram filhos, se separaram, amaram e morreram.

SINOPSE



LARISSA NÃO MORA MAIS AQUI é uma história destas. O Edifício Comendador Siqueira foi criado nos anos 50 como ultimo grito na construção civil. Apoiado na euforia de um Brasil campeão do mundo foi investido de todas a regalias que o ufanismo utópico podia oferecer. Elevadores com pantográficas. Recepção com amplos arcos e grandes corredores, quartos imensos e pé direito alto marcaram o uso exorbitante dos espaços. Os primeiros moradores viveram o apogeu do prédio, mas e criou em torno pequenas favelas para albergar a mão de obra necessária para manter o luxo. Aos poucos a decadência toma conta e o mar de favelas cresce em torno do Edifício Comendador Siqueira. Os alugueis caem e os novos inquilinos tentam manter a dignidade de suas vidas nos dias de hoje. Até que novas propostas do mercado imobiliário de compra do edifício e subseqüente demolição para criação de um ultra moderno super centro de negócio totalmente auto-sustentável e ecologicamente correto é projetado. A história dos últimos moradores do edifício combina com um retrato social da nossa sociedade, ilhada, oprimida, falida, moralmente indecisa e assustada.
A trama começa com a proposta de demolição ao qual os moradores tentam resistir. Entendem que aquele lugar representa uma cidade que eles sonharam e não aceitam de modo algum o oferta de compra pelo pull de investidores.
A partir de então vemos os o dia-a-dia dos moradores e toda a gama de pessoas que vivem no edifício.


PERSONAGENS



Vemos Alpha que é a zeladora, ascensorista e faxineira e faz tudo do prédio. Ela é o que restou de uma imensa quantidade de funcionários e se defronta com o desgaste constante dos metais aniquilando o prédio a cada momento. Ela é uma espécie de alma do condomínio. Sabe tudo e se mete na vida de todos.
No terceiro andar temos a Lara que é uma mulher que carrega o estigma do mau cheiro. Ela sofre de forte odor das axilas. E ao separa-se de Lorenzo para casar com Nene que sofre de um mau hálito crônico.
No quarto andar temos dois apartamentos do espólio do Comendador Siqueira que é propriedade das filhas Larissa e Clarissa. Larissa tem um caso com o Inspetor Medeiros que por sua vez trabalha para o Delegado Marcos Peçanha que é casado com Clarissa, mas tem um caso com Larissa também que embora muito amigos, Medeiros e Peçanha, nenhum saiba do caso outro com Larissa. Clarissa é fotografa e deprimida. Larissa é ninfomaníaca e não consegue ficar sem um homem.
Quinto andar mora o Rafael e sua irmã Ana Julia. A mãe deles abandonou a família para morar com uma mulher e isso deprimiu o pai. Rafa assumiu logo sua homossexualidade e tem um mini-poodle chamado Verbotin. Ana Julia, apesar de estudar psicologia, é bastante baladeira e porra louca. Ela odeia a musica Ana Julia dos Hermanos e por isso sempre que passa alguém canta para ela.
Sexto andar mora Josky, dizem que seu nome é em ioruba, que é um dos enigmas da trama cujo significado será descoberto ao final. Ele é estudante de química que no meio da faculdade começou a sintetizar drogas estimulantes e analgésicos potentes. Namora a Iracema que é uma modelo, mas a relação deles sofreu grande abalo devido a uma gravidez indesejada. Rafa é apaixonado por Josky e Iracema é seu objeto de idolatria e fetiche.
Sétimo andar mora os Almeida. Alfeu e Alice. Eles são alcoólatras. Ele diz que está escrevendo um livro que nunca escreve. Alice não tem desejo sexual algum e vende produtos da Natura. Ambos freqüentam o AA inutilmente.
Oitavo mora Lorenzo que foi casado com Lara, mas separou-se porque descobriu-se bissexual. Ele tem um caso com Fonsequinha que é filho de militar e quer ser ator de teatro.
No nono andar mora Chico Pata e sua mulher Roberta. Ele é um paranóico que está em guerra com todo o condomínio. Sempre reclamando, vive ameaçando outros condôminos. Roberta humilha o marido sempre que pode. manda no marido. Chico é irmão de Nene que está tendo dificuldade sexuais com Lara. Os dois gostam de se encontrar para reviver os clubes de luta da juventude onde uma freqüentemente nocauteava o outro.


quarta-feira, 18 de novembro de 2009

CAMILO DE LÉLIS ESCREVE SOBRE DANÇAREI

"Hoje eu vi teatro. Andava falando mal, reclamando do que virou o nosso teatro na última década. Mas, espera aí! Tenho notado que há alguma excessão. Assisti a "Tá e Aí?", "Pilulas de Vatapá" e, por último, "Dançarei Sobre Teu Cadáver - direções de Julio Conte. "Tá e Aí?" é uma experiência cênica que mereceria um estudo mais aprofundado e se calhar, numa outra temporada, talvez eu me anime a fazê-lo. Porém, essas duas peças, "Pílulas de Vatapá" e "Dançarei Sobre Teu Cadáver" têm muitos pontos em comum, e o mais forte é o elenco que é muito jovem, se não estou errado, oriundo de oficinas ministradas por Julio Conte. Ambas as peças são de dramaturgia juliana e refletem a vida como ela é, e com tintas bem carregadas. Em "Pílulas...", que já faz algum tempo que assisti, a coisa é meio rodrigueana com incestos e que tais, além de muita drogadição e sexo. "Dançarei..." que assisti agorinha, no final da temporada do Teatro de Arena, me estimulou a falar bem de nosso teatro, a equipe merece meus louvores. Julio definiu o texto a partir de improvisações com os atores e conta, também, com o auxílio de Vicky Mendonça, que escreveu uma cena. Suas peças de oficina são espartanas; necas de cenário, alguns adereços e figurino mínimo. Então elas têm de ter alguma coisa a ser dita; e o que se ouve compensa a carência material. A turma de atores é natural, sem "over action" e outros estrionismos ou truculências, que os atores da antiga acabam adquirindo muitas vezes por preguiça de investir suor numa arte tão desvalorizada como é o teatro. Ninguém tranca a respiração, ou tremula o lábio inferior, ou falseia a voz para simular emoção; tudo ocorre com fé cênica, na sequência lógica que as cenas trazem ao espectador. E o que conta a peça? Conta a trajetória de um rapaz que resolve se endireitar na vida, largar as drogas e estudar, mas que não chega a bom fim, pelo contrário, termina morto. A narrativa é em "flash back", inicia pelo fim, e vai construindo os episódios que a trouxeram a tal desfecho. A estória tem vários personagens, que são apresentados ao público, ao mesmo tempo que cada ator se apresenta, pessoalmente, na abertura do espetáculo: "Eu sou fulano e farei tal personagem, que é assim e assado, pensa isso e faz aquilo, etc". Isso faz com que o público relaxe e participe afetivamente do que será mostrado. Há o crack, a prostituição, mas também há o afeto, a amizade e até o amor.Foi um alívio ver uma peça que, apesar de ter sido feita sem recursos financeiros, nos fala a verdade. Eu que andava até enjoado dos shakespeares& sófocles que andaram assombrando a cidade, vi, satisfeito, uma coisa simples, mas eficaz. Sim, o teatro necessita de eficácia, pois trata-se de ministrar um "farmakon", e eu tenho tomado placebos aos montes, até dessas peças riquissimamente encenadas que nosso belo festival nos traz anualmente, mas que falam de um outro mundo, não o mundo em que vivemos, ou mostra outras épocas, não devidamente transpostas. Houve um cara em Atenas, Frínico, contemporâneo de Ésquilo, que cometeu a seguinte gafe: o poderio persa estava apavorando os helenos e acabara de reprimir violentamente uma rebelião em Mileto, matando todos os homens e levando as mulheres e crianças como escravos. Então, Frínico escreveu e encenou "A Tomada de Mileto". A comissão do festival aceitou o argumento e aprovou o financiamento, após um ensaio geral. Mas na representação pública a porca torceu o rabo, pois os atenienses furibundos com o próprio sofrimento, em uma futura invasão persa à sua cidade, que a encenação prenunciava, não se ateve à compaixão pelos vencidos, mas sim ao poderio do vencedor que os ameaçava. Resultado: multa ao dramaturgo e proibição da peça, que jamais foi reencenada. Conto essa passagem, numa defesa de que se volte a escrever e dizer coisas vivas, para lembrar aos ressuscitadores de textos antigos, que estes, se não contextualizados, tornam-se anacrônicos, que o teatro desde suas origens foi uma exposição de atualidades, mesmo que através de episódios históricos ou mitos originais. Na peça " Dançarei Sobre Teu Cadáver" Julio Conte, num exemplo de contextualização, faz uma referência mitológica aos troianos e sua infeliz Cassandra, cuja sina era vaticinar com extremada correção, porém ninguém acreditava em suas profecias. Na peça de Julio, uma moça, normalmente meio tansa, quando é possuída pelo espírito da escrava Anastácia prevê o futuro das outras personagens, mas, como no mito, ninguém acredita nela. É ela que nos dá o epilogo do espetáculo:" Eu vi, eu vejo, eu verei! A sociedade de consumo virou sociedade da consumação! A vida não vale nada, mas nada vale a vida! Eu falo mas ninguém acredita..."Bem, se os gregos, nossos primeiros mestres, falavam de coisas que afetavam os seus contemporâneos, penso que o mesmo devemos fazer nós, se formos bons estudantes daquela filosofia, a qual podemos degustar na precisão e beleza de seus textos. Se não temos toda aquela poesia dramática, que tenhamos ao menos aquela atualidade, isto é, estejamos presentes à chamada do deus do vinho&teatro, Dionisos. E, eu que estava presente, vi quando os atores da peça "Dançarei Sobre Teu Cadáver" responderam em uníssono ao terceiro sinal: "presente!""
Camilo de Lélis

sábado, 24 de outubro de 2009

DEPOIMENTO SOBRE DANÇAREI SOBRE TEU CADÁVER

Porto Alegre, 05 de fevereiro de 2009.

Um Gostoso Reencontro
Jorge Alberto Benitz

Antes, desculpas pelo titulo meloso.Vou me permitir tecer humildes comentários sobre a peça de Julio Conte e Vicky Mendonça, “Dançarei Sobre Teu Cadáver”. Antes queria externar a minha satisfação de retornar, como expectador, ao teatro. Injunções da vida, que alguns chamam de aburguesamento, me levaram para ocupações e lazeres outros, que sem duvida, apequenaram a minha cultura. Digo isto porque senti ao retornar o quanto é visceral e impactante ver uma peça de teatro. Outros dizem que é apenas um outro modo de ser burguês. Dizem mais: O sujeito vai ao teatro, vê Brecht ou outro autor teatral com a mesma verve critica social dura e implacável e sai dali, vai jantar no restaurante da moda e amanha pode muito bem estar na posição de, por exempl o, um diretor de RH de uma multinacional, cortando gastos, eufemismo para dissimular a antipática prática chamada de corte de pessoal, sem dor no coração e na consciência e assim a vida continua até outra sessão teatral e outro jantar sofisticado, recheado de comentários sobre a performance de fulano ou beltrana, sobre a pertinência do cenário, etc...

Em contrário, posso dizer que tal possibilidade é inerente a toda a arte. Melhor, a todo o fazer. Se assim pensássemos todos, restaria cruzar os braços, esperando a morte chegar ou esperando Godot, como queiram. Viva a arte! Mesmo quando ela parece abraçar o pior tipo de niilismo, ainda assim transcende-o e diz sim a vida. Quando falo em niilismo artístico estou me reportando a entediados e afetados autores europeus como, por exemplo, Becket, um chatonildo segundo Ferreira Gullar, com quem comungo neste particular e em outros embates como o que empreende com os concretistas. Mas isso é outra história. Já estou, como sempre, encompridando e tergiversando demais.

Vamos a peça. Um lembrete: Esta é apenas uma opiniãozinha, que assenta perfeitamente no sentido dado por Quintana quando elogiaram o seu poeminha. Isto mesmo. Uma humilde impressão, melhor uma crônica, com tudo que isto implica- inclusive aquele divertido epíteto que a rotula de literatura de bermudas- , de alguém pouco versado na manha teatral, de alguém que só teve a idéia de escrever sobre a peça movido pela satisfação tida ao vê- la e, principalmente, por ter me comprometido com a namorada de meu filho Daniel, atriz da peça com uma performance instigante pelo estranhamento que ela conseguiu imprimir na personagem (Nao vai aqui nenhum puxa- saquismo de sogro.Tentei, na medida do possível, ser o mais imparcial possível, neste pormenor). Mera idiossincrasia. Antes que me atirem pedras, digo em minha defesa q ue estou assim sendo fiél a prédica de Zé Celso Martinez que ao falar sobre Oswaldo de Andrade, diz, lá pelas tantas, que o teatro deste, que é um dos mentores da semana de arte moderna de 22, pretende nada menos do que: ( )...se intrometer um tudo, palpitar sobre tudo, devorar tudo, utilizar tudo. Um impurismo total. Sua única grande fidelidade é seu sentido anárquico de apreensão de mundo ( )... Sei que adotar esta postura antropofágica oswaldoandradiana não é condição suficiente para estar sendo digno de atenção e consideração cultural, nem estou postulando tal condição. Apenas me valho dela para dar o meu pitaco. Alias, acho que todo o leitor, expectador que gosta de escrever deveria assim proceder.


No começo tive o desejo de, mesmo pouco versado em teatro, como já disse, de rotula- la de rodriguiana. Parecia haver todos os elementos deste universo nela. Logo me dei conta que no teatro de Nelson Rodrigues tem- se uma abordagem do mundo classe média. Classe média carioca, melhor entendido. Nem por isso menos universal. Daí uma grande diferença. O mundo focalizado na peça era mais periférico, mais suburbano, mais marginal e mais atual. Mas essa não era a única diferença com o chamado teatro rodriguiano. Há outra: Uma contenção que apesar de sutil, sempre se faz presente quando o cru, o erótico ou mesmo o prazer pervertido parece que vai tomar conta da cena. Não se vai as ultimas conseqüências como sói acontecer no teatro rodriguiano, as vezes de modo necessário , outras vezes apenas para alimentar o lado voyeur e/ou o gosto sadomasoquista de Nelson Rodrigues e seu público.

A natural rebeldia da juventude neste ambiente, marcado pela carência econômica e afetiva, torna qualquer desavença, qualquer discórdia resultante de interesses dispares, em chispas que facilmente se transformam em explosões. Mundo que assim como uma mesa de sinuca não deixa a bola sair do seu quadrado, se apresenta como sem saída para aqueles jovens que se debatem e vivem um possível que é muito mais dor e sofrimento do que prazer. Mesmo a busca de prazer nas drogas e no sexo, se mostram como o que realmente são: Meras válvulas de escape incapazes de saciar a ânsia de uma vida melhor.

Contrastando com este horror cotidiano nasce um deboche, uma leveza, um humor, uma ironia que paira sobre todo aquele mundo insano e que, provavelmente, mostra que a despeito de todas as adversidades aqueles jovens são iguais a todos os jovens. Cheios de alegria, humor e energia que somente não se transformam em algo socialmente positivo por culpa das injunções que os tolhem e impõem descaminhos que, se pudessem, com certeza não trilhariam.

Nada mais revelador de quanto é impermeável esta triste sina do que a morte do Life Boy. Cheio de sonhos e desejantes como quase todos os demais personagens, ele se distinguia por estar mais próximo de superar todos os obstáculos e vicissitudes e assim alcançar uma redenção. Uma bala não deixou que isto ocorresse. Não há happy end. Nem na ficção e .......nem na realidade.

Quanto à performance dos atores, somente me considero em condições de dizer que foram intensos, aplicados e convincentes. Se não o fossem, provavelmente, eu ficaria impassível. Não foi o que aconteceu, ao contrário, ora ria, ora ficava triste, ora tenso e a todo o tempo ligado. Por extensão, fica patente a mão dos autores e do diretor ou diretora que conferem beleza, graça e pertinência a trama e a dinâmica do espetáculo. Mais não digo por absoluta incapacidade.