Mãozinha e a Medalha de Ouro

Quando era criança jogava bola no campinho de várzea.  Ficava no fim da Dario Pederneiras, quase na com a Av. Ipiranga. Era um quadrado de terra cercado de ruas por todos os lados. Na verdade não era um quadrado, mas sim um triângulo de areião e dentro dele as quatro linhas, todas imaginárias, formavam  o quadrilátero. O campo não tinha grama nem era plano. Tinha um grande cinamomo na parte de cima que obrigava a driblar além dos adversários, a grande árvore. Havia um declive no primeiro tempo e um aclive no segundo ou vice versa. Juntava muitos times no final do dia quando se juntava as pastas do colégio e o futebol se tornava o esporte mais importante do mundo. Ali no campinho de várzea se tornava o lugar de celebridades e deuses anônimos do futebol. Haviam muitos, mas o maior deles era o Mãozinha. Ele tinha uma impressionante capacidade de esconder a bola, colocava o corpo de lado e o braço esquerdo ficava grudado no peito e a mão, daí o apelido, ficava boba, balançando obscena com o minguinho esticado. Mãozinha era sempre o primeiro a ser escolhido dentro daquele sistema que todos garotos conhecem. Par ou impar, quem ganha escolhe primeiro, que é sempre o melhor,  e depois os outros. E assim sucessivamente até que chegava a vez dos perna de paus, ruins, dos perebas que inevitavelmente iam jogar no gol. Pois um dia alguém disse, acho que foi o Alemão que morava na rua de cima disse:
- Mãozinha não joga nada. Só dá passe para os lado.
Tudo mundo se surpreendeu. Como assim, o Mãozinha era o melhor jogador da rua.
O Alemão insistiu que ele só tinha marra. Jogo de cena. Parecia que jogava, mas na verdade não era nada disso. Insistia que A mãozinha boba dá ideia que ele é bom, mas não jogava nada. Foi categórico. A partir daí todo mundo percebeu que o Mãozinha só fazia cena e que o time dele sempre perdia. Foi um morro abaixo na ladeira da glória. Não era mais o primeiro a se escolhido e meses depois o pai dele foi transferido para Caçapava do Sul e nunca mais ouvi falar do Mãozinha.
Até que hoje, não sei porque, me lembrei dele. Estava assistindo o jogo do Brasil contra o México, disputa de medalha, vendo a seleção do Mano Menezes jogar, Marcelo tocando para Sandro, para Neymar, para... que era aquele mesmo. Gente parecia o Mãozinha! O time do Brasil virou um time de mãozinha.  Parece que joga, mas não joga.
O Alemão tinha razão.

Comentários

vervedirlass disse…
_Você, me fez dar um intervalo no Twitter; por isso estou aqui no seu blog pela 2ª vez. E de olho do Café TVCom (íiii, já terminou)
Lembrei de quando eu era 'mocinha' [ai ai ai, adolescente]. Minha prima, eu e minha irmã; íamos vez em quando num campinho de futebol pra ver os guris jogarem bola. Se 'mostrar' pras gurias e vice versa.
_Obrigada !!!

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